Blog Familiarte
quinta-feira, 29 de outubro de 2009 por mahaoki em

ESPECIAL A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR
07/10/2009

“Sonho com o tempo em que poderemos falar em integração nacional através da cultura da criança”

Lydia Hortélio estudou piano, educação musical e musicologia, mas foi na cultura do brincar que encontrou sua maior paixão. Já são mais de 20 anos de estudo sobre os brinquedos. Palavra, que segundo ela, não traduz apenas um objeto. Seu significado é bem mais amplo. Ela diz que brinquedo é tudo que envolve o brincar. A roda, o jogo, a cantiga. É uma palavra que traduz desde o objeto com o qual se brinca, a estrutura brincante até o próprio fenômeno lúdico.

Segundo Lydia, as crianças de hoje estão perdendo muito por não terem contato com a natureza e não terem a oportunidade de aprender mais por meio dos brinquedos tradicionais.

Como surgiu o interesse pela cultura do brincar?
Quando um professor extraordinário que eu tive mostrou gravações feitas na Hungria, no começo do século 20, com crianças pequenininhas cantando, isso me tocou profundamente. Logo eu comecei a fazer fichas dos brinquedos da minha infância. Foi nesse momento que despertou o meu interesse pelos brinquedos.

Esse professor que me chamou a atenção que nós educadores tínhamos o costume de tirar a cantiga e dar aula de música. Ele disse que isso ainda não era brinquedo. O brinquedo tem a cantiga, tem a palavra, tem uma ação, tem um movimento próprio e precisa ser brincado para poder ter vida. Ele dizia que brinquedo é um organismo vivo.

Qual a relação você vê entre o brincar e a música?
Os brinquedos são silenciosos. Os meninos falam muito, mas quando estão brincando não falam tanto. Eles só falam o que é necessário para a realização daquele brinquedo. E o vocabulário é ligado às regras e à necessidade do brinquedo.

Vi depois que tinham alguns brinquedos com som, e esses sons também são estruturais. Então existem brinquedos silenciosos e brinquedos sonantes. Esses brinquedos sonantes têm uma música muito elementar que depois vai se tornando mais complexa até chegar aos brinquedos verdadeiramente cantados com melodias desenvolvidas. Com esses estudos, a gente pode constatar que a música brasileira já existe na música tradicional da infância. Então a música tem um papel muito importante no repertório dos brinquedos de criança.

Há muitos anos você pesquisa o brincar em vários países. O que encontrou de mais interessante?
Eu morei 20 anos na Europa e lá existem muitas fontes. Tenho um acervo fabuloso de informações e usei muitas delas para mostrar o que é infância ao longo da história. Existem pinturas, gravuras, esculturas, achados arqueológicos. Com isso você vê os mesmos brinquedos em épocas remotas interligadas e em culturas completamente diferentes. Por exemplo, o brinquedo das cinco pedrinhas, na minha terra se chama “capitão”, em Vitória da Conquista é chamado “jogo da avó” e provavelmente o nome vai mudando em muitos municípios. Esse é um brinquedo que é encontrado em muitas épocas. Tenho documentos da Grécia antiga, revelando que eles usavam esse brinquedo. Existem pinturas na Holanda do século 16, na Inglaterra do século 19 e também na Itália. Você encontra em vários lugares que, pressupõe-se, não se comunicavam entre si.

O brincar também tem o papel de transferir cultura e experiência de uma criança para outra?
Necessariamente se transfere porque quando a criança aprende um brinquedo, depois quer ensinar para outras. Elas gostam disso. É assim que funciona a cultura da infância, ela vai permeando tudo, se transferindo de um lado para o outro. Em uma aula eu cantei um brinquedo da minha infância, que foi o único brinquedo de mão que eu conhecia quando criança. Enquanto eu cantava, uma senhora cantava junto comigo. Ela disse que conhecia aquele brinquedo, mas ela morava em Bofete, no interior de São Paulo, e não tinha nenhuma ligação com o Nordeste. Eu não sei como esse brinquedo chegou até lá. Muitas vezes eu encontro esse tipo de situação.

Eu sonho com o tempo em que nós poderemos falar em integração nacional através da cultura da criança, de modo que os meninos passem a reconhecer os seus compatriotas através de uma cantiga que ambos conhecem. Gostaria de viajar o Brasil inteiro para verificar essas diferenças, porém essa tarefa fica para as gerações futuras.

Você acha que o brinquedo industrializado está substituindo esse intercâmbio cultural entre as crianças?
Sim e é uma pena. Inclusive, hoje em dia, poucos são os artesãos que fazem brinquedos. Até nas feiras do interior os brinquedos de plástico, que não tem valor lúdico nenhum, estão por toda parte.

Os brinquedos são diferentes de acordo com a idade?
Eu entendo os brinquedos como uma expressão da necessidade de crescimento. Então, com um ano, a criança acaba descobrindo as mãozinhas e passa a usá-las como brinquedo. O menino que é um pouco mais velho e aprende a andar tem necessidades diferentes e o corpo dele pede determinados movimentos que a própria evolução o leva a realizar. Existe uma cronologia.

Depois, os brinquedos vão ficando cada vez mais diversificados. Alguns possuem regras que representam um desafio para o corpo e que resultam numa apropriação das possibilidades de movimento que existem no corpo humano. Os meninos se apropriam disso por meio de seus brinquedos.

O videogame e o computador impossibilitam esse desafio para o corpo?
Tendo visto durante anos o brincar das crianças entre elas mesmas, eu acho o videogame de uma pobreza enorme. Primeiro porque você não precisa do outro. E depois ele tem que cumprir as regras do brinquedinho.

O que você deve fazer é mostrar outras possibilidades e, antes de mais nada, levar os meninos para a natureza. A gente saiu da natureza para morar nas cidades, com espaços cada vez menores, os quintais desapareceram, a maioria das pessoas mora em apartamentos, o quarto das crianças são menores e elas não vão ao playground porque têm televisão e computador em casa.

Quando um menino está à beira do mar, ele tem a água ou ele está no campo e tem uma árvore pra subir ou areia pra rolar. Ele tem desafios que vão restituir na criança o sentimento do corpo que é o que a gente perdeu.

O que isso representa para a criança?
Tudo funciona “na cabeça” e você tem não só o pensar. Tem também o sentir, o querer, o fazer. E a parte do fazer está adormecida.

A escola também faz parte do pensar e é um pensar desconectado, pois só existe a preocupação em compreender e organizar. Criam-se regras para entender as coisas numa dimensão abstrata.

O grande problema da humanidade é termos saído da natureza. Mesmo quem está na zona rural já possui televisão e as crianças ficam plantadas na televisão e os pais arranjam qualquer dinheiro para comprar bobagens eletrônicas para os filhos.

Os brinquedos brasileiros podem revelar as origens do nosso povo?
Sim. É interessante ver as várias vertentes de formação do povo brasileiro. Eu tenho encontrado na zona rural muito brinquedo remanescente de índios. Percebemos que na estrutura melódica algumas coisas são mais africanas, outras são mais indígenas, outras de origem portuguesa, ibérica. Chegamos  a encontrar todos os gêneros da música brasileira. Isso porque os pais em um certo momento cantam para os filhos.

Com o tempo estudando isso, passamos a diferenciar o que é nitidamente inventado pelas crianças e outras que não são de crianças, possuindo uma arquitetônica diferente e mais desenvolvida, se assemelhando a canções da cultura popular. Por isso, é de extrema importância o estudo da música tradicional da infância.

A senhora falou integração do país pela cultura da criança. Como isso seria possível?
O primeiro gesto seria se interessar pela cultura da criança. A televisão se incumbiu de passar um borrão em cima disso tudo e foi-se perdendo o gosto não só com a cultura da criança, mas com tudo que é brasileiro.

Ainda vi um Brasil em que a gente se reunia para cantar, para tocar um bandolim, um cavaquinho, puxar um violão. Existiam concursos de música popular e havia um estímulo à criação dentro dos moldes da cultura brasileira. Porém, a televisão catalisou a atenção das pessoas e o convívio foi muito comprometido.

Tenho sentido um interesse em relação ao brincar e vejo o interesse das pessoas crescer a cada dia, principalmente em São Paulo, onde muitos sentem saudade de cultura popular. Só pelo fato de existir há 15 anos em São Paulo uma casa como o Brincante (que promove estudos, pesquisas a respeito da arte e da cultura brasileira e que oferece cursos voltados para o brincar), já é um sinal de aproximação, de busca. É importante também fazer com que as pessoas voltem a se lembrar e a perceber que a infância está desaparecendo. Esse fato acontece em todo o mundo.

Por que a senhora acredita que a infância está desaparecendo?
Estão tirando os filhos das mães cada vez mais cedo para ir à escola e lá começa uma prática apenas mental, quando as crianças são um corpo. Elas vivem em completa inteireza, o sentir, o pensar e o querer são uma unidade na criança e na educação fundamental já se começa a dividir isso. Eu vejo isso como uma ameaça muito grande, uma perda irreparável pra humanidade.

A falta de tempo dos adultos tem contribuído fortemente para as crianças ficarem no videogame. A criança vem sendo “domesticada” de acordo com os interesses comerciais da televisão. A solução é fazer os meninos conviverem com outros meninos, levar as crianças para a natureza, pois um projeto extraordinário da própria evolução está contido em nós.

Felizmente muitas vozes estão se levantando e tentando reconquistar o espaço de direito da criança, que é a natureza e o convívio para que na cultura da criança restabeleça um equilíbrio para o ser humano.

Adelso Murta Filho
“O quintal é o território encantado da infância”

Adriana Friedmann
“As crianças estão sendo educadas por um outro mundo que foge aos muros da escola”

Ana Lucia Villela
“O apelo emocional do consumo atinge todo o mundo”

Lydia Hortélio
“Sonho com o tempo em que poderemos falar em integração nacional através da cultura da criança”

Paulo Tatit
“É importante que a criança seja impregnada com o que há de melhor da sua cultura”

Susan Linn
“Arte, religião e descobertas científicas são todas enraizadas na nossa capacidade de brincar”

3 comentários sobre “Entrevista com Lydia Hortélio sobre a importância do brincar

  1. Excelente as considerações de Lydia Hortélio e Aderson M. Filho (ainda não li as demais).
    Seus dizeres e experiências remete-me aos conhecimentos antroposóficos que tive a oportunidade de vivenciar na Pedagogia Waldorf, que faz parte de minha formação.
    Acredito que, enquanto educadores da infância muito podemos contribuir com a mesma, através deste conhecimento e suas práticas. Helena Flávia.

  2. Lydia Hortélio é maravilhosa, encantadora. Lydia, tem razão, as crianças de hoje estão perdendo muito por não terem contato com a natureza e não terem a oportunidade de aprender mais por meio dos brinquedos tradicionais.

    Elaborei e desenvolvi um projeto para resgatar as brincadeiras e brinquedos, em uma escola pública em Euclides da Cunha. Foi muito lindo para nós da escola e as crianças. Até Lydia adorou o projeto.
    Parabén pela entrevista c/ Lydia.

  3. Valeu pela inciativa de divulgar a entrevista, mas é preciso que deixem claro que replicaram a entrevista que Lydia deu ao Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana! Uma das pessoas acima, ao fazer o seu comentário, parabenizou-os pela entrevista, o que denota a referida falta de clareza! Atenciosamente, Priscila

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