Criança precisa brincar livre de qualquer intenção, simplesmente brincar. Hoje o que vemos são crianças com rotina de adultos, cada vez mais compromissadas, que passam o dia inteiro na escola, ou, muitas delas, com o tempo absolutamente ocioso, desestimuladas na frente de uma televisão e interagindo somente com uma babá.
Correr, correr, correr… Todos tentando driblar horários, compromissos, trânsito, levar, buscar, almoço, trabalho e mais um monte de tarefas numa verdadeira maratona cotidiana.
A relação descontraída e os momentos conjuntos entre pais e filhos são bastante importantes e essencialmente necessários dentre esse monte de afazeres e, com certeza, quem é mãe ou pai sabe disso. Porém, o que fazer se não sobra tempo?
Muitas vezes a saída é: “brincarmos com eles a noite, ou no final de semana, e durante o resto do dia a criança tem que ficar na escola”. E para a criança, será que está tudo bem passar o dia inteiro no mesmo ambiente, já que os seus pais precisam trabalhar? Dá para imaginar… se para os adultos é estressante ter que passar o dia todo num único lugar, por que achar que com a criança o desconforto não é similar ou até maior? Ver as mesmas pessoas, praticar os mesmos tipos de atividades e, principalmente, estar no mesmo lugar durante todo o dia acaba sendo cansativo, também, para crianças.
É claro que fica muito mais fácil dessa maneira, só ter o compromisso de levar e buscar. Lá na escola a criança estuda, brinca, almoça, dorme, acorda, tudo muito prático, não há com o que se preocupar… Será que não há? Pode ser bastante trabalhoso proporcionar à criança uma mudança de ambiente, mas aí surge outra pergunta… Será que não compensa? Sabe-se que a adaptação delas acaba acontecendo, mesmo sem ter esta atenção especial, porém qual será o custo no seu desenvolvimento, na formação da sua auto-estima? Quanta energia ela terá que dispor para dar conta desse estresse? E se não conseguir?
Evidentemente que os pais sempre procuram alternativas para ocupar seus filhos, enquanto estão trabalhando, com muita preocupação e cuidado. Entretanto, cabe uma reflexão, talvez as crianças não devessem ter o seu dia inteiro consumido numa rotina semelhante a uma atividade profissional, onde entram de manhã e só vão sair ao final do dia. Será que não vale a pena realmente se desdobrar para proporcionar a criança uma realidade menos exaustiva? Pode-se com algum esforço e uma boa dose de planejamento, dar a oportunidade para a criança ocupar o seu tempo de maneira mais tranqüila, porém bastante construtiva, criativa e expressiva… Afinal, como diz o poeta Arnaldo Antunes: “Criança não trabalha, criança dá trabalho”.
Estas foram questões inspiradoras para a concepção do Familiarte. Com base no conhecimento teórico e prático das sócias fundadoras em educação infantil, identificou-se uma lacuna a ser preenchida. Uma destas sócias, com larga experiência acumulada em anos de trabalho como professora de crianças, muitas das quais tendo que permanecer em período integral na escola, pôde observar o alto desgaste físico e psicológico destas. Ao ficarem tanto tempo no mesmo local, por mais livre que fosse a proposta, as crianças mostravam-se costumeiramente desanimadas e ansiosas para irem embora. Sobretudo quando as atividades em sala de aula ocorriam na parte da tarde, as crianças que ficavam os dois períodos na escola, por vezes, encontravam-se sem energia, acabando por não produzir no ritmo que se esperava delas no contexto de sua turma.
Tal observação foi fundamental para a construção do conceito e proposta de um trabalho diferenciado, que culminou com a criação do Familiarte. A partir deste debate, propondo uma alternativa para atender à demanda identificada, pensou-se na concepção de um espaço que fosse uma opção para o período oposto à escola, porém tal ambiente deveria ser diferente de uma escola: um local não percebido como “A escola”. Um lugar onde a criança pudesse brincar e se expressar de todas as formas, mas sem um propósito predefinido, como um brincar simplesmente, um brincar acompanhado, incentivado, criativo e recreativo. Um espaço onde ela possa circular mais livremente, encontrar e conviver com crianças de várias idades, conhecer outras culturas e aprender a respeitar as diferenças, entre grandes e divertidas brincadeiras.
Nas mais diversas áreas (teatro, artes plásticas, música, faz-de-conta, horta…), a criança será sempre estimulada a interagir e se expressar melhor em cada linguagem, a cada momento. Assim surgiu a idéia do Familiarte, com a proposta de convidar a criança para estar e fazer parte, de fato, de todo o processo de construção de um grupo, de um tema, de uma idéia, enfim, de uma boa brincadeira. E, principalmente, chamá-la a participar de uma experiência diferente daquela já vivida, todos os dias, no período escolar.
Ao longo do semestre, acontecem as Oficinas Temáticas do Brincar, que pretendem ampliar o conceito e a ação do brincar, levando as crianças a transitarem por diferentes espaços lúdicos, através de distintas formas de expressão. Para isso, são trabalhados temas variados baseados nos interesses das crianças, surgidos a partir de uma leitura do “educador / oficineiro”. Por meio desses temas o grupo vai trilhando seus próprios caminhos, que tomam forma, cor e movimento, criando uma brincadeira. Já nas terças-feiras, as brincadeiras têm ainda outro grande atrativo, a língua inglesa. As crianças podem brincar em diversas atividades disponíveis, porém ouvindo e sendo estimuladas a conversar em inglês. Assim elas podem ter contato com outro idioma de uma forma leve e descontraída.
No Espaço Familiarte, acredita-se que é importante dar liberdade de escolha para a criança optar por realizar as atividades que tenha maior afinidade. No entanto, também se valoriza a circulação entre as diferentes áreas, para incentivar o contato com as diversas formas de expressão. Desta maneira, haverá sempre, pelo menos, duas opções dentre as quais a criança poderá escolher, conforme a sua intenção. Inclusive, caso algum dia ela sinta vontade de ficar mais quieta, num momento mais introspectivo, após ser primeiramente incentivada a participar, poderá exercer esta opção e terá um lugar adequado para tal. Trata-se, deste modo, de um espaço livre em que a criança circula orientada por seu interesse, convivendo com outras crianças de várias idades em harmonia.
Por fim, estamos oferecendo-lhes algo que lembra os antigos quintais onde se brincava com irmãos, primos e amigos em geral.
“No brincar aprende-se a consciência de si e do outro… e a auto aceitação”
“O desenvolvimento salutar de nossa consciência individual e social, bem como a elaboração adequada de nossas capacidades emocionais e intelectuais, e, em especial, de nossa capacidade de amar, com tudo o que implica, depende de nosso crescimento no brincar”.
Assim conclui HUMBERTO MATURANA, ao afirmar que:
“DEVEMOS DEVOLVER AO BRINCAR SEU PAPEL CENTRAL NA VIDA HUMANA”
(Amar e Brincar. H. Maturana e Gerda V.Zöller – Ed. Palas Athena – 2004.)
